A cruz dos pregadores
Chegamos hoje ao VIII domingo depois de Pentecostes, dia que chega trazendo uma certa apreensão a todos os pregadores, pois que hoje se lê no Evangelho a parábola do “feitor ou administrador infiel”. Não sem razão, entre os sacerdotes, a parábola de hoje é chamada de “cruz dos pregadores”, em razão da dificuldade de se explicar a sua moral enigmática.
Com efeito, o Evangelho de hoje fala de um homem rico que tinha administrador infiel, o qual foi acusado de esbanjar os bens do seu patrão, e que é então demitido pela sua má administração.
Diz-nos o Evangelho: “Que é que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens” (Lc. XVI, 2). Diante da sua demissão, o administrador fica apavorado, e diz para si mesmo: “Que farei, visto que meu patrão me tira o emprego? Lavrar a terra? Não o posso. Mendigar? Tenho vergonha” (v. 3). E então decide fraudar os pagamentos a serem recebidos pelo patrão, de modo a conseguir a amizade daquelas pessoas a quem beneficiava. Ao que devia 100 barris de azeite, mandou que escrevesse no recibo 50; ao que devia cem medidas de trigo, ordenou que pusesse 80. Reduzindo, assim, a dívida dessas pessoas, buscava conseguir a sua amizade.
Os lucros e a astúcia do feitor infiel
Em suma, vê-se que o administrador infiel era corrupto e ladrão. Mas fique claro que ele não era um ladrãozinho qualquer, porque administra uma grande fortuna: 100 barris de azeite correspondem ao rendimento de 150 oliveiras, o que dá cerca de 3700 litros de azeite. As 100 medidas de trigo são o rendimento de 42 hectares, ou quase 30 toneladas. Em ambos os casos, o desconto é de cerca de cinquenta denários, sendo o denário o salário por um dia de trabalho para um trabalhador agrícola. São somas bastante elevadas.
O que conta para este mordomo é dinheiro. Seu Deus é Mamom, ele vive para enriquecer a si mesmo. Acusado por seu mestre, ele encontra um estratagema para sair da situação. Ele reduziu pela metade as dívidas dos devedores de seu senhor. E o que acontece? De uma forma surpreendente e até chocante, seu mestre o parabenizou por sua habilidade: “Granjeai amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a precisar, vos recebam nos tabernáculos eternos” (Lc. XVI, 9).
Isso é bastante estranho à primeira vista, mas é compreensível quando sabemos que, de acordo com os costumes judaicos, os mordomos não recebiam seu salário de seu mestre, mas se pagavam cobrando uma comissão sobre a transação, uma comissão que muitas vezes era excessiva. Assim, o mordomo não rouba de seu mestre. Na realidade, ele renuncia à sua comissão, ou seja, renuncia a roubar dos devedores.
Com efeito, o Evangelho de hoje nos recorda duas lições valiosas: primeira, que um dia deveremos prestar contas diante do Senhor; e, segunda, que as coisas da terra devem ser por nós usadas para conseguirmos o Céu.
A prestação de contas: o juízo particular
Certamente, um dia, quando acabar o curso da nossa vida, Deusnos vai chamar em juízo, e dirá a cada um de nós: “presta contas da tua administração”. Assim como o administrador infiel do Evangelho de hoje, Nosso Senhor nos confiou a administração de um imenso tesouro de graças que nos confiou desde o início dos nossos dias: quando bebês, recebemos a graça do santo Batismo, que nos fez filhos de Deus e herdeiros do Céu; recebemos depois o perdão dos nossos pecados no sacramento da Confissão; fomos educados nas verdades da fé, para conhecer os caminhos retos do Senhor, recebemos o alimento do próprio Jesus na Sagrada Comunhão!
Todas essas graças sobrenaturais são riquezas que Nosso Senhor nos confia para adquirirmos a posse do Reino dos Céus. E nós devemos lucrar em cima dessa riqueza, através do apostolado e do bom exemplo. Será justamente disso que nos pedirá contas o Bom Deus no dia do juízo: PRESTA CONTAS DA TUA ADMINISTRAÇÃO.
Diante do tribunal de Deus
Nosso Senhor, então, estará como juiz assentado em seu trono, e vai pedir contas de como administramos as graças que ele nos concedeu: a cada um de nós, cristãos, perguntará como vivemos a graça batismal, como verdadeiro filho de Deus, ou como um filho das trevas? Cooperei nas obras de apostolado, busquei a salvação das almas, ou afastei, pelo meu mau exemplo, ao meu próximo do caminho do bem?
AOS CLÉRIGOS, Nosso Senhor nos perguntará se buscamos fielmente continuar a sua missão de salvação das almas, se administramos com zelo os sacramentos e vivemos uma vida de oração, ou se fizemos o oposto disso. A primeira opção nos abrirá as portas da salvação, mas a segunda, certamente a da condenação.
AOS PAIS E MÃES perguntará, sobretudo, com quanta seriedade buscaram dar uma educação cristã aos filhos; se buscaram dar o bom exemplo de uma vida de piedade, de virtude, de honestidade, ou então, se desde o berço já começaram a ensinar todos os maus costumes que nós vemos tristemente no nosso mundo.
AOS PATRÕES E AOS FUNCIONÁRIOS perguntará como viveram a sua vida profissional, isto é, se dando o testemunho da honestidade e da virtude cristã, ou então, escandalizando o próximo através do roubo ou da corrupção; se mesmo na vida profissional buscaram testemunhar a fé no Senhor, ou se se envergonharam dele por causa do respeito humano.
Imitar a sabedoria dos filhos do mundo
Por fim, Nosso Senhor nos diz que “o proprietário admirou a astúcia do administrador, porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz no trato com seus semelhantes” (Lc. XVI, 8).
Na sua esperteza, os filhos do mundo, buscando enriquecer ou crescer na vida, correm atrás dos seus objetivos, como se disso dependesse a sua vida. Assim também devemos para nos salvarmos, pois que a nossa salvação depende de nós crescermos na graça e na virtude, o que exige esforço, coragem, ânimo e prudência. Assim como os mundanos correm para conseguir suas riquezas, corramos também para adquirir um tesouro no Céu, como nos pede o Senhor:
“Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam” (São Mateus VI, 19-20).
Esse é o grande e mais importante negócio das nossas vidas, do qual tudo depende: a salvação da nossa alma imortal. Todo resto é sem valor, sem interesse.
Peçamos, por fim, caríssimos irmãos, a Nossa Senhora, nossa Mãe Santíssima, que nos ajude a termos sempre em vista as coisas do Céu, de modo que possamos, a exemplo dela, nos apresentarmos diante do Bom Jesus, no último dia, ricos de graças, méritos e virtudes.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!








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