Homilia do XIII Domingo depois de Pentecostes

Homilia do XIII Domingo depois de Pentecostes

O quarto mandamento e a virtude do patriotismo

Ordena-nos o 4º Mandamento da Lei de Deus: “honra teu pai e tua mãe” (Ex. XX, 12), uma vez que, por justiça, devemos honrar aqueles que são a origem do nosso ser e o princípio do nosso governo. Essa honra ou devoção que se dá aos nossos pais e superiores manifesta-se em uma virtude a qual chamamos de “piedade”. Com efeito, sendo a nossa pátria, de certo modo, origem do nosso ser, educação e governo, é natural que também igualmente a honremos – essa é a virtude do patriotismo.

Justamente, é a virtude do patriotismo que deve marcar para nós o dia de hoje, pois que neste dia, 7 de setembro, festejamos a Independência do Brasil. Busquemos, então, ouvir o que é que o próprio Jesus, por meio da S. Liturgia, nos pede para que sejamos bons brasileiros.

Os leprosos e milagre da cura

Diz-nos o evangelista São Lucas, no Evangelho de hoje, que dez leprosos foram até Jesus suplicar a graça da cura. Nosso Senhor prontamente ouviu os rogos desses pobres leprosos ao ordenar que se apresentassem ao sacerdote, certamente já anunciando que seriam curados. Justamente, no meio do caminho, estes homens perceberam que o milagre realmente aconteceu e que estavam curados. Destes dez, voltou um, somente, rendendo graças a Deus pela cura realizada. A volta desse único senhor surpreendeu a Jesus, sobretudo ao ver a ingratidão dos outros, de modo que perguntou: “Mas então não foram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? Não se achou, pois, quem voltasse e desse glória a Deus, senão este estrangeiro!” (Lc. XVII, 18).

Busquemos compreender o sentido espiritual desse fato evangélico. Primeiramente, o evangelista nos diz que os dez homens eram leprosos. Essa lepra, doença terrível que desfigura homem, representa o pecado, que enfeia a alma do fiel cristão. Já no nosso nascimento, estávamos privados da graça divina, e a nossa alma estava desfigurada pelo pecado original. Mas num belo dia, embora fossemos pequenos, o Bom Jesus nos curou: deu-nos o banho milagroso do Santo Batismo que fez das nossas almas belas, puras e agradáveis a Deus. Fomos curados da doença do pecado!

Qual a nossa obrigação diante desse milagre que se realizou em nossas vidas? Sermos gratos, como o leproso samaritano do Evangelho. Diz o evangelista São Lucas que o samaritano voltou para render graças. Com efeito, esse termo “ação de graças” se traduz em grego por “Eucaristia”. Realmente, só por meio da participação no sacrifício eucarístico, na Santa Missa, que podemos oferecer a Deus uma digna ação de graças pelas tantas bênçãos e graças que Ele nos concedeu.

O abandono da frequência à Santa Missa

Todavia, com grande tristeza, podemos observar que o fato narrado no Evangelho de hoje se repete em nosso querido Brasil. Nossa nação nasceu católica, de tal modo que o primeiro ato público ocorrido em nossas terras foi a celebração de uma missa, em 26 de abril de 1500. Essa herança católica passou de geração em geração até chegar a nós, mas contemplemos o cenário: atualmente, somos 100 milhões de católicos, representando 56% do total de brasileiros. Dentro do número total de fiéis, a frequência a missa, segundo as mais recentes pesquisas está em 8%, isto é, 8 milhões de católicos que frequentam a Santa Missa aos domingos.

Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles (1860).

É o fato do Evangelho que se repete: 10 curados da lepra, mas só um que volta para render graças a Deus. 100 milhões de batizados, mas só 8% participando do Santo Sacrifício da Missa. Quanta ingratidão! Quanta indiferença!

O Mandamento divino e o preceito eclesiástico

Ordena o terceiro Mandamento da Lei de Deus “guardar os domingos e dias santos”. Essa ordem é explicada pelo primeiro preceito da Igreja, que preceitua “ouvir missa inteira aos domingos e festas de guarda”. Esse princípio é repetido com ainda maior clareza no Código de Direito Canônico, o livro das leis da Igreja, que explicita:

No domingo e nos outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar da Missa; além disso, devem abster-se das atividades e negócios que impeçam o culto a ser prestado a Deus, a alegria própria do dia do Senhor e o devido descanso da mente e do corpo (c. 1247).

A Lei da Igreja é claríssima: assistir a missa aos domingos é uma obrigação grave do fiel católico. Por essa razão, comete pecado mortal aqueles que faltam à missa dominical. Mas quantos não são aqueles que faltam a missa aos domingos com as desculpas mais absurdas… Uns dizem que tem que receber visitas, outros que estão muito cansados, e alguns até inventam trabalhos no dia santo!

Amados irmãos, sejamos sensatos: o domingo não nos pertence, mas a Deus! Não profanemos o dia santo do Senhor! O Bom Jesus reserva para nossa semana um tesouro de graças e bênçãos especiais, mas devemos buscá-las na missa dominical. De modo que é sempre útil repetir o ditado: “domingo sem missa, semana sem graça”.

A apostasia de uma nação

Realmente, caríssimos irmãos, pesa-nos o coração ao constatar a diminuição da prática religiosa do nosso povo, o que gerou uma miséria religiosa de consequências notáveis, dentre as quais citamos:

  • I. Ignorância religiosa – desconhecem-se os Mandamentos da Lei de Deus e os princípios mais básicos da doutrina cristã
  • II. Indiferença religiosa, segundo a qual todas as religiões são boas
  • III. Perda da noção de pecado: tudo é permitido
  • IV. Abandono da moral, da modéstia e dos bons costumes
  • V. Desmantelamento e desprezo da família tradicional
  • VI. Aumento da criminalidade e da corrupção na sociedade
  • VII. Sentimento geral de desesperança e sem sentido do mundo

E qual a razão dessa situação deplorável? O abandono e o esquecimento de Deus! Eis a grande razão dos tantos problemas que vemos em nossa pátria.

E nós, fiéis católicos, nada faremos para remediar tão triste situação? Rezemos pela nossa nação! Peçamos a conversão do nosso povo! E mais, sejamos exemplares para atrair as almas a Jesus por meio do nosso bom exemplo.

Hoje, porém, amados irmãos, é para nós um dia de ação de graças. Agradeçamos ao Bom Deus a graça de termos nascido neste belo e abençoado país, rico em belezas naturais, herdeiro e um passado glorioso e católico, marcado pela fé em Nosso Senhor e em sua Santa Mãe, que apareceu nas águas do Rio Paraíba e que invocamos sob o título de Nossa Senhora Aparecida.

Concluo recordando as belas palavras do Hino Católico Brasileiro, de Afonso Celso, cujas palavras são para nós inspiradoras, ao recordar o glorioso passado de nossa pátria amada:

Nossa Terra batizada,
Terra foi de Vera Cruz.
Sendo assim predestinada
Para o culto de Jesus (bis)
CÔRO:
Brasileiros, bons e puros,
Para o Céu erguei as mãos.
Mais e mais em Deus seguros,
Tende fé, sede cristãos! (bis)

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Padre Júlio da Silva Soares

Sacerdote católico adscrito ao clero da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney.

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